Friday, December 16, 2005



Agricultura Montargilense nos finais do séc. XVIII

Saibam quantos este Instrumento de Arrendamento virem que no Ano do Nascimento de Nosso senhor Jesus Cristo de mil setecentos e noventa e dois aos vinte e cinco dias do mês de Janeiro na Cidade de Lisboa e Rua Diraita da Calçada de Santa Ana a Casa de minha residência apareceram presentes o Doutor Luis José Pereira ... morador na praça do Rossio que outorga na presente em nome e como Procurador de Tomás Godinho, lauvrada digo lavrador e morador na vila de MonteArgil em virtude de uma procuração que fica neste Cartório e se trasladará nos traslados que deste se extrairem isto de uma parte e da outra estava José Narciso ... morador na Cruz de Santa ..., que outrorga na presente em nome e como Procurador de Dona Clara Joaquina da Cunha da Ribeira Tojal e Benevide em virtude de uma Procuração que ... partes aprovam que fica neste Cartório e se trasladará nos traslados que deste se extrairem isto de uma digo se extrairem e logo pelo referido José Narciso ... foi dito perante mim Tabelião e testemunhas adiante nomeadas que a sua dita constituinte é senhora e possuidora de uma herdade denominada de Aldeia das Sebes sita no Termo de Monte Argil a qual herdade com todas as suas pertenças usando dos poderes da sua Procuração arrenda e dá de arrendamento por este instrumento a ele Tomás Godinho das cláusulas, condições e obrigações seguintes; que este arrendamento valerá somente por tempo de seis anos hão-de ter por princípio no primeiro de Janeiro do Ano que há-de vir de mil setecentos e noventa e três e fim no último de Dezembro de mil setecentos e noventa e ... por modo que sejam seis anos completos com as novidades que Deus der e mais não; que pagará de renda em cada ano a quantia de vinte e seis mil réis em dinheiro, e dois porcos de cinco arrobas cada um e duas marrãs de ano cada uma , tudo posto em casa da senhoria conduzido a conta e risco do rendeiro e pago tudo no mês de Dezembro de cada ano antes do dia de S. Tomé sendo tudo livre de Décima ou de qualquer outro tributo ou direito ou desconto pois tudo quanto se dever pagar da dita herdade o pagará este herdeiro à sua custa por ser este contrato expresso entre ... partes e tudo lhes ir já abonado na dita renda; que os dois porcos de que trata sejam pesados vinte e quatro horas depois de ..., e não tendo as cinco arrobas de peso cada um, que devem ter, pagará o rendeiro o que faltar pelo preço que correr nesta cidade, e se ... maioria que o excesso lho pagará a senhoria pelo mesmo dito preço; que este rendeiro beneficiará a dita Herdade e Monte tudo à sua conta sem descontar nada na dita renda; que o rendeiro não poderá cortar Árvore ou Madeira alguma da dita Herdade nem ainda para sua Lavoura sem licença expressa, e por escrito dela senhoria a fim de toda se conserve na dita Herdade e esta vá em aumento; que pagando bem o dito rendeiro, e cultivando o melhor que poder ser a dita Herdade se obriga ele Procurador no nome que representa a fazer bom este arrendamento pelo dito tempo, mas faltando o rendeiro a qualquer de suas ditas obrigações poderá a sua constituinte remover este arrendamento pelo tempo que faltar, arrendando a herdade a quem quiser ou obrigar o rendeiro a que cumpra este Instrumento, o que fica a eleição de sua constituinte; e pelo Procurador do rendeiro foi dito, que aceita este arrendamento para seu constituinte pelo modo que está comtinuado, e que o obriga a tudo cumprir e pagar como fica estipulado para o que o obriga os bens de seu constituinte móveis e ... e os submoventes de sua lavoura, e que o obriga a responder por este instrumento nesta cidade de Lisboa na Correcção do Cível da Corte na qual não tem dúvida que este se julgue por sentença e em virtude dela ser extraída mandado para ser executado o dito rendeiro e seu fiador abaixo declarado por tudo o resultante deste Instrumento e ainda pelo despejo que desde já aconteça para qualquer tempo que o mereça dizendo mais ele Doutor, que muito de sua livre vontade ficava por fiador e principal pagador dele rendeiro e por ele se obrigava pagar tudo o neste estipulado e para o que ... obrigava seus bens e se sujeitava a responder na dita correcção para o que se dava por citado e o seu constituinte e renunciava todos os seus privilégios e do ..., que ambos pudessem alegar e pelo Procurador da Senhora foi dito que aceitava as preditas obrigações para sua constituinte pelo modo que em direito mais firme for, e em testemunho de verdade afim a outorgaram e a ... de parte a parte sendo testemunhas presentes meu filho Francisco ... Xavier morador em minha casa, e João Lopes Carreira oficial papelista? E morador na Rua Augusta que conhecemos os outorgantes que ... ... assinaram e testemunhas depois deste ser por mim lido e Eu Francisco Xavier Vieira Henriques o escrevi ... José Narciso rezam?= Luis José Pereira Cleto de Vadconcelos=João Lopes Carreira=Francisco .. Xavier Vieira Henriques

Afonso de Sousa Pacheco Leitão da Ribeira Benavides, senhor e possuidor da herdade denominada da Aldeia das Ceves, cita em Alem Tejo, no termo da vila de Monte Argil, em cujo domínio entrou por morte de sua mãe D. Clara Joaquina da Cunha, pretende expulsar o actual colono que nela se acha, Tomás Godinho.
Funda-se a sua súplica em que este colono, vivendo distante da herdade légua e meia, não só tem deixado arruinar a sua cultura, porque não tem para ela o gado suficiente, nunca semear as três folhas de que ela se compõe deixando reduzir parte dela a mato, mas tem até queimado pinheiros da mesma herdade, cortando outros, e vendido a madeira, e deixou arruinar palheiro.
O colono suplicante na sua resposta ... diz que há mais de sessenta anos que se acha por si e sues antepassados cultivando esta herdade, sem nada dever ao impetrante, que não tendo nas casas da herdade as precisas acomodações, habita na vila, pouco menos de légua, aonde contudo vai, frequentes vezes, providenciar sobre a sua cultura: que possui gado, em quantidade bastante, para os fabricos, de que ela precisa, e que tem aumentado a sua cultura, com benfeitorias á sua custa; não devendo ser arguido por se achar mato nas folhas, pois que segundo a prática dos lavradores se não roça este, se não de anos a anos, par que se não tornem infrutíferas as terras: diz-se autorizado pela mãe do impetrante para se poder ter utilizado de alguns pinheiros, bem como para vender outros para a reedificação do palheiro: e finalmente que a ruína deste é tanto anterior ao tempo, em que ele entrara na herdade que já na factura de arrrendamento ficara a ... mãe do impetrante de o mandar levantar, o que nunca fizera.
Quanto se prova do .... cujas testemunhas (lavradores, peritos e vizinhos da herdade) depuseram à matéria da sua súplica, e resposta é que, podendo sem incómodo seu e a exemplo de todos os caseiros seus antecessores habitar nas casas da herdade o não faz, morando na vila, que fica, que fica em distância de mais de légua; que as três folhas de que se compõe a herdade não andam cultivadas pelo suplicante com a precisa ordem, porque havendo deixado crescer mato em todas, não tem semeado nenhuma como devera, nem o pode fazer, porque precisando de oito a dez bois para o fabrico da terra, ele só tem dois, sendo que as pastagens da herdade já, em outro tempo, admitiram vinte rezes de gado vacum: que lançando, o mesmo colono, fogo a um mato, se queimaram também muitos pinheiros da herdade ; e que a ruína do palheiro sucedra depois que o suplicante entrara para a herdade, aonde como rendeiro, somente o conhecem, há sete ou oito anos.
Da escritura de arrrendamento ... se vê também, que claramente foi proibido ao dito colono, que pudesse cortar madeira alguma da herdade, salvo com licença expressa, e por escrito, a qual ele não mostra; e finalmente que este arrendamento seria só por espaço de seis anos, que findaram em dezembro do ano de 1798 ...
Nestes termos posto que o dito colono não seja ... por falta de pagamento, como se convence de menos sincera a sua resposta, e se verifica a determinação da cultura da herdade e danificação das suas oficinas, e arvoredos, no tempo do seu arrendamento, que é findo, que é findo, parece-me que em observação do Decreto de ... de 21 de Maio de 1764, sua resolução de 6 de Novembro de 1770, e... deve o dito colono ser expulso da herdade e atendido a esse fim o recurso do Impetrante, com a provisão que ele suplica. Vossa Magestade porém mandará o que for justo. Santarém, 22 de Março de 17799
O Provedor da Comarca de Santarém, Manoel José de Arriaga Brum da Silveira.



Wednesday, December 14, 2005


1 - Prazer infinito (Cont.)... O prazer dos gestos, caras e corpos únicos e belos; dos gestos meigos ou agressivos, quanto basta.
O prazer de brincar, imaginar que uma mulher é um homem e um homem uma mulher (só por pouco tempo!)
O prazer de voar, de mudar, de nadar, de não mudar, de correr, de trabalhar, de resolver problemas, de beber, de ouvir música...
O prazer de (nos)mostrar-(mos) e de (nos)vermos e às nossas e de outros obras e descobertas, o prazer de descobrir, de ir mais além.
O prazer de partilhar, de unir/dividir, de ver de perto ou de longe.
Possivelmente o prazer de estar\pensar em alma gémea – a nossa metade e complemento primordial – é tão importante como o do orgasmo...
O prazer de relaxar\contrair, de ver pessoas e seres justamente felizes/infelizes, dum grande sorriso, dum grande cranio, dum grande coração, duma grande beleza, dum grande artista. De fazer como Krishna e Lilit! De recordar amores, paixões, outras almas quase gémeas! O prazer da variedade/não variedade, da comodidade, do agreste, da mão, da associação, do só... do equilíbrio. Equilibrar os prazeres: o maior dos prazeres!
O prazer da concentração e da dispersão, do tudo e do nada, do mais secreto e do mais divulgado...
O prazer de não ter dores, de ser rico, de nada ter, de continuar, da firmeza, da cedência, de retribuir, de todas as maneiras... Da velocidade, da lentidão, do falar e escrever, e, do calar! O prazer dos cabelos, e, da ausência deles. O prazer do todo e da parte!
O prazer do realismo, das nossas mulheres e homens. Mulher é mãe! E, morto o pai, somos pai! O prazer de procurar e encontrar melhor. O prazer de fazer melhor!
O prazer de experimentar\descobrir que há coisas que não mudam! Se estamos saciados, estamos saciados! E, o que é a vida se não o saciar de desejos?
Quando é que dormimos? Quando estamos saciados de um certo tempo. Quando é que morremos? Quando estamos saciados de uma certa vida. Quando é que acordamos? Quando estamos saciados de um certo sono? Quando é que reencarnamos? Quando estamos saciados de uma determinada morte? Há vida depois da morte? Certamente. Como a há no sono, semelhante á do sono, de preferência com bons sonhos, não com pesdelos!
E, depois de estarmos saciado de um prazer, vamos saciar-nos doutro! O prazer de viver... O prazer de morrer... De jogarmos, a treinar e a sério... O prazer de sonhar... De resolver problemas... De nos defendermos... De ganharmos.
Uma pessoa é tanto mais importante quanto mais feliz é, quanto mais prazer tem!




2 - EXERCÍCIO DO PODER – O caso da Misericórdia de Montargil , e não só…, em 1778


“O Provedor da Comarca informe com seu
Parecer; Lixª. 12 de Fevereiro de 1778
(Assinatura ilegível)




Senhora.



A Vossa Magestade representam alguns do Povo da vila de Monteargil, comarca de Santarém o deplorável estado em que há tempos se acha o Governo da Misericórdia da mesma Vila, sem aquela distribuição para que precisamente se devem aplicar as suas rendas: e a razão disto é por que devendo eleger-se um Provedor e mais oficiais da Misericórdia, que não sejam daqueles que depois de absorverem as ditas rendas, tornam a ficar eleitos sem mais diferença de que ficarem servindo na mesma Misericórdia em lugares diversos, e todos inclinados a utilidade própria, atropelando o direito que os referidos pobres têm às referidas rendas, e por isso mesmo não .... este Governo do capitão? António José Bernardes, de seu cunhado Manoel Cardoso, José Soeiro Magro, seu primo, José Cario Marques, António Francisco, José Bernardes, Miguel João, sendo todos parentes, e alguns mais da sua parcialidade para que na ocasião da eleição sejam sempre alguns destes os Eleitos, para se utilizarem das rendas da dita Misericórdia a seu arbítrio, e alguns dos mesmos lhe são devedores, não só dos alcances? com que vaga? O lugar de Tesoureiro de uns para outros, mas também de alguns legados sobrogados?, e desta sorte são distribuídos os ditos bens, não chegando estes nunca para se darem a viúvas, pobres e pessoas necessitadas de esmolar o pão que por elas costumavam repartir-se anualmente, e do mesmo modo nenhuma caridade há com os pobres doentes, porque chegando um miserável conduzido sobre um carro, à porta da Misericórdia a pedir o socorro para a sua necessidade, não há quem lhe responda, escusa-se o Provedor, e padece o miserável o rigor da muita chuva sobre o mesmo carro, até que sabendo disto o Reverendo Prior daquela vila o mandou conduzir para sua casa aonde morreu dentro de poucas horas e semelhantemente tem praticado esta mesma caridade com outros doentes pobres, João Soares de Andrade, recolhendo-os em sua casa e tratando deles mais sua mulher, e irmã, ajudados de outras esmolas que algumas pessoas de caridade lhe dão para o mesmo ..., o que muito bem sabe ... ... Neto, cirurgião daquela vila o qual também por esmola tem ... destes, e outros ... enfermos, por cujo motivo se poderá dizer que naquela terra faltam ambas as coisas; tanto a Misericórdia, como a justiça, visto os ditos Irmãos da Misericórdia não querem o dinheiro dos pobres senão para usarem dele em utilidade própria. E como Vossa Magestade costuma prover de remédio semelhantes necessidades


Vossa Magestade seja servida
ocorrer
A semelhantes desordens pelo meio
que lhe
Parecer justo






Se parecer ao..... se deve passar ordem ao Provedor da Comarca que proceda a nova eleição, e havendo-se por nula a dos actuais .... como ilegítima; e que faça a nova na conformidade do compromisso, ficando inabilitados por termo para sempre, para não tornarem aos empregos da Casa, os que com suborno, conluio, e parcialidade , alternaram entre si os ofícios da Casa, conservando-se alternadamente na administração dos bens da Casa. Outrossim que se proceda a prisão pelo tempo que a ... ordenar, contra os ... do compromisso, e das ordens ...., e se há alguns antecedentes; ao mesmo Provedor da Comarca se dê poder para providenciar quanto for necessário para a melhor economia, não admitindo reeleição; e que tomando as contas sem limite de tempo, faça restituir, pelos que causaram os danos, procedendo logo a sequestro dos bens dos danificantes. Com o .... rigor. E que se pode fazer exemplo, para se evitar a universal cavilação, com que esta, e as mais Casas do reino são danificadas com equivalentes procedimentos, como tem mostrado a experiência nas frequentes queixas”

Fonte: Arquivos Nacionais da Torre do Tombo


3 - Perfection - Our objective is only one: justice, joy, creativity, pleasure. We can't conform ourselves with pain, ignorance, deceiveness and err. An action that implies pain is not good, is not perfect. What we have to live are just and creative lives, not negative lives.

Tuesday, December 13, 2005


1 – Uns morrem, mais novos ou mais velhos, de doenças cardíacas, de cancro e de outras doenças semelhantes, e, outros suspeitam que seja do que comem, bebem e fumam. Mas, não deixam de continuar a fazê-lo também, preferindo antes sugerir que terá sido por outros motivos, talvez por não serem bons como eles, pensando assim que escapam, que será tudo uma questão de esperteza. Mas não é. E, é por isso que não podemos ser bons demais.

2 – Se o frio é necessário, a chuva é-o, neste momento em Portugal, ainda muito mais. Convém não nos esquecermos disto. Mesmo que alguns não a mereçam, temos de estar de acordo nisto!

3 – É de uma estupidez atroz que seres que se pensam superiores façam egoisticamente sofrer outros seres ditos inferiores, quando, unicamente devemos defender-nos de quem nos ataca.

Monday, December 12, 2005


EXERCÍCIO DO PODER – O caso da Misericórdia de Montargil , e não só…, em 1778


“O Provedor da Comarca informe com seu
Parecer; Lixª. 12 de Fevereiro de 1778
(Assinatura ilegível)




Senhora.



A Vossa Magestade representam alguns do Povo da vila de Monteargil, comarca de Santarém o deplorável estado em que há tempos se acha o Governo da Misericórdia da mesma Vila, sem aquela distribuição para que precisamente se devem aplicar as suas rendas: e a razão disto é por que devendo eleger-se um Provedor e mais oficiais da Misericórdia, que não sejam daqueles que depois de absorverem as ditas rendas, tornam a ficar eleitos sem mais diferença de que ficarem servindo na mesma Misericórdia em lugares diversos, e todos inclinados a utilidade própria, atropelando o direito que os referidos pobres têm às referidas rendas, e por isso mesmo não .... este Governo do capitão? António José Bernardes, de seu cunhado Manoel Cardoso, José Soeiro Magro, seu primo, José Cario Marques, António Francisco, José Bernardes, Miguel João, sendo todos parentes, e alguns mais da sua parcialidade para que na ocasião da eleição sejam sempre alguns destes os Eleitos, para se utilizarem das rendas da dita Misericórdia a seu arbítrio, e alguns dos mesmos lhe são devedores, não só dos alcances? com que vaga? O lugar de Tesoureiro de uns para outros, mas também de alguns legados sobrogados?, e desta sorte são distribuídos os ditos bens, não chegando estes nunca para se darem a viúvas, pobres e pessoas necessitadas de esmolar o pão que por elas costumavam repartir-se anualmente, e do mesmo modo nenhuma caridade há com os pobres doentes, porque chegando um miserável conduzido sobre um carro, à porta da Misericórdia a pedir o socorro para a sua necessidade, não há quem lhe responda, escusa-se o Provedor, e padece o miserável o rigor da muita chuva sobre o mesmo carro, até que sabendo disto o Reverendo Prior daquela vila o mandou conduzir para sua casa aonde morreu dentro de poucas horas e semelhantemente tem praticado esta mesma caridade com outros doentes pobres, João Soares de Andrade, recolhendo-os em sua casa e tratando deles mais sua mulher, e irmã, ajudados de outras esmolas que algumas pessoas de caridade lhe dão para o mesmo ..., o que muito bem sabe ... ... Neto, cirurgião daquela vila o qual também por esmola tem ... destes, e outros ... enfermos, por cujo motivo se poderá dizer que naquela terra faltam ambas as coisas; tanto a Misericórdia, como a justiça, visto os ditos Irmãos da Misericórdia não querem o dinheiro dos pobres senão para usarem dele em utilidade própria. E como Vossa Magestade costuma prover de remédio semelhantes necessidades


Vossa Magestade seja servida
ocorrer
A semelhantes desordens pelo meio
que lhe
Parecer justo



Haja vista ao Processo da Coroa, Lxª 16 de setembro de 1782


Seja V. Magestade servida mandar-me informar o requerimento junto do Povo da vila de Monte Argil, interpondo o meu parecer.


Se parecer ao..... se deve passar ordem ao Provedor da Comarca que proceda a nova eleição, e havendo-se por nula a dos actuais .... como ilegítima; e que faça a nova na conformidade do compromisso, ficando inabilitados por termo para sempre, para não tornarem aos empregos da Casa, os que com suborno, conluio, e parcialidade , alternaram entre si os ofícios da Casa, conservando-se alternadamente na administração dos bens da Casa. Outrossim que se proceda a prisão pelo tempo que a ... ordenar, contra os ... do compromisso, e das ordens ...., e se há alguns antecedentes; ao mesmo Provedor da Comarca se dê poder para providenciar quanto for necessário para a melhor economia, não admitindo reeleição; e que tomando as contas sem limite de tempo, faça restituir, pelos que causaram os danos, procedendo logo a sequestro dos bens dos danificantes. Com o .... rigor. E que se pode fazer exemplo, para se evitar a universal cavilação, com que esta, e as mais Casas do reino são danificadas com equivalentes procedimentos, como tem mostrado a experiência nas frequentes queixas”

Fonte: Arquivos Nacionais da Torre do Tombo

Sunday, December 11, 2005


O Montargilense, após um começo de campeonato distrital estranho, ganhou ontem em casa ao Monfortense, por 2 a 1.

Wednesday, December 07, 2005


O casulo da dor

Texto de Charlotte Joko Beck, extraído do livro"Nada Especial"
Qual é o deus que construímos? O que de fato honramos, a que damos realmente atenção, de momento a momento? Poderíamos chamá-lo de o deus do conforto, das amenidades e da segurança. Quando reverenciamos esse deus, destruímos a nossa vida. Quando reverenciam o deus do conforto e das amenidades, as pessoas literalmente se matam, com drogas, álcool, corridas de automóveis, raiva, imprudências. As nações reverenciam esse deus numa escala muito maior e destrutiva. Enquanto não enxergarmos de forma honesta que é disso que nossa vida trata, não seremos capazes de descobrir quem somos de fato.
Temos muitas maneiras de lidar com a vida, muitas maneiras de reverenciar o conforto e as amenidades. Todas elas baseiam-se na mesma coisa: o medo de deparar com qualquer tipo de incômodo. Se devemos ter ordem e controle absolutos, estamos tentando evitar toda e qualquer fonte de incômodo. Se conseguimos fazer com que as coisas sejam do jeito que queremos e ficamos zangados quando isso não acontece, então pensamos que podemos sobreviver e deixar de lado nossa ansiedade a respeito da morte. Se conseguimos agradar a todas as pessoas, então imaginamos que as coisas desagradáveis não entrarão em nossa vida. Esperamos que, sendo a estrela do espetáculo, resplandecente, maravilhosa e eficiente, teremos uma platéia tão embevecida que não precisaremos sentir nada. Se conseguirmos nos afastar do mundo e entreter-nos apenas com nossos próprios sonhos, fantasias e distúrbios emocionais, pensaremos que conseguimos nos furtar aos incômodos. Se conseguirmos prever tudo antes, se conseguirmos ser tão espertos que nos seja possível encaixar tudo em algum plano ou ordem, formulando um entendimento intelectual completo, então talvez não sejamos ameaçados. Se conseguirmos nos submeter a alguma autoridade, fazê-la ditar-nos como agir, então poderemos entregar a outrem a responsabilidade por nossa vida e não teremos mais que nos incumbir dela. Não teremos de sentir a ansiedade de tomar uma decisão. Se vivermos alucinadamente correndo atrás de todas as sensações agradáveis, de todas as excitações, de todas as formas de diversão, então talvez não tenhamos de sentir dor. Se conseguirmos dizer aos outros o que fazer, mantendo-os bem sob controle, sob nossos pés, talvez eles não consigam nos ferir. Se conseguirmos "viajar" num êxtase qualquer, se conseguirmos ser um "buda" inconseqüente, não teremos de assumir a responsabilidade pelos incômodos do viver. Poderemos apenas relaxar e ser felizes.
Todas essas são versões do deus que realmente reverenciamos. E o deus do nenhum desconforto e do nenhum incômodo. Sem exceção, todo ser na Terra tem essa atitude, em maior ou menor grau. Enquanto a alimentamos, perdemos o contato com o que na verdade é. Nessa falta de contato, nossa vida desce em espiral. E aqueles mesmos incômodos que tanto desejávamos evitar conseguem tomar-nos de assalto.
Tem sido esse o problema da vida humana desde o início dos tempos. Todas as filosofias e religiões têm sido tentativas variáveis de lidar com esse medo básico. Apenas quando essas tentativas nos falham é que ficamos prontos para iniciar uma prática séria. E elas de fato falham. Porque os sistemas que adotamos não se baseiam na realidade, não podem dar certo, apesar de todos os nossos maiores esforços. Mais cedo ou mais tarde, constatamos que está faltando algo.
Infelizmente, nós muitas vezes apenas aumentamos o nosso erro continuando com as mesmas tentativas ou revestindo nosso velho e débil sistema com um outro novo, também débil. É sedutor, por exemplo, entregarmo-nos a alguma falsa autoridade ou a um pretenso guru, que irá administrar a nossa vida por nós, enquanto tentamos encontrar algo ou alguém fora de nós que se incumba de nosso medo.
Ontem uma borboleta entrou voando pela porta de minha casa e ficou esvoaçando pela sala. Alguém a apanhou e a soltou lá fora. Fiquei pensando na vida de uma borboleta. Ela começa como uma lagarta, que se desloca muito devagar e não consegue enxergar muito longe. Depois de um certo tempo, ela faz um casulo e naquele espaço escuro e silencioso permanece muito tempo. Por fim, depois do que deve parecer uma eternidade de trevas, ela emerge como uma borboleta.
A história de vida das borboletas é semelhante à nossa prática. Temos alguns preconceitos a respeito de ambas, porém. Podemos imaginar, por exemplo, que sendo as borboletas seres lindos, sua vida no casulo, antes de se tornarem borboletas, também é linda. Não percebemos tudo o que a lagarta deve suportar para tomar-se uma borboleta. Da mesma forma, quando começamos a praticar, não nos damos conta da longa e penosa transformação a que somos solicitados. Temos de enxergar através de nossa busca de coisas externas, dos falsos deuses do prazer e da segurança. Temos de parar de devorar isso e perseguir aquilo com nossa visão míope e simplesmente relaxar dentro do casulo, nas trevas da dor que é a nossa vida.
Essa prática exige anos e anos. Diversamente das borboletas, não emergimos de uma só vez. Enquanto giramos dentro do casulo de dor, podemos ter vislumbres fugazes da vida, como uma borboleta esvoaçando ao sol. Nesses momentos, sentimos o absoluto deslumbramento do que é nossa vida — algo que nunca conhecemos como lagartinhas atarefadas, preocupadas apenas com nós próprias. Começamos a conhecer o mundo da borboleta apenas pelo contato com nossa própria dor, o que significa não reverenciar mais o deus do conforto e das amenidades. Temos de desistir de nossa servil obediência a qualquer sistema que evite a dor que tenhamos elaborado, constatando que não podemos nos esquivar do incômodo simplesmente correndo mais depressa e tentando mais um pouco. Quanto mais depressa nos afastamos de nossa dor, mais ela se apodera de nós. Quando não funciona mais aquilo de que dependíamos para dar sentido à nossa vida, o que fazer?
Algumas pessoas jamais desistem dessa falsa busca. Com o tempo podem acabar morrendo de uma overdose, literal ou figurativamente. No esforço de adquirir controle movemo-nos cada vez mais rápido, damos tudo o que temos, tentamos com mais empenho, esprememos as pessoas ao máximo, esprememos nós mesmos ao máximo. No entanto, a vida nunca poderá ser de fato submetida a um controle total. Quanto mais fugimos da realidade, mais a dor aumenta. Essa dor é nossa mestra.
A prática sentada não trata de encontrar um estado feliz de graça e nele se esquecer. Esse estado pode inclusive ocorrer na prática sentada, quando já houvermos vivenciado nossa dor várias vezes seguidas, de modo que depois só resta o entregar-se. Essa entrega a essa abertura para algo novo e virgem é a conseqüência de se viver a dor, não o resultado de se encontrar um lugar onde podemos deixar a dor do lado de fora.
Sesshin sentado e a prática diária são uma questão de nos embrulharmos naquele casulo de dor. Não o faremos senão de bom grado. Primeiro podemos ter apenas uma pequena faixa atando-nos, e então nos livramos dela. Outra vez a enrolamos à nossa volta e mais uma vez nos soltamos. Depois de um tempo, sentimo-nos dispostos a sentar com uma parcela de nossa dor durante algum tempo. Então depois, talvez, dispomo-nos a tolerar duas ou três faixas nos apertando. Conforme nossa visão vai ficando mais clara, podemos simplesmente sentar dentro de nosso casulo e descobrir que é o único espaço sossegado que já tivemos na vida. E, quando estivermos dispostos a estar ali —em outras palavras, quando estivermos desejando que a vida seja o que ela é, englobando tanto a vida como a morte, tanto o prazer como a dor, tanto o bem como o mal, sentindo conforto em ser as duas coisas —, então o casulo começa a desfazer-se.
Diferentemente da borboleta, alternamos entre o casulo e a borboleta muitas vezes. Esse processo se mantém por toda a nossa vida. Toda vez que deparamos com áreas não resolvidas de nossa vida, temos que construir um outro casulo e repousar nele em silêncio até que tenha se completado o período de aprendizagem. Toda vez que o casulo se rompe e nós damos mais um pequeno passo, estamos um pouco mais livres.
O primeiro e essencial passo para nos tomarmos uma borboleta é reconhecer que não chegaremos lá sendo lagartas. Temos que enxergar mais além de nossa busca pelo falso deus do conforto e do prazer. Temos que formular uma nítida imagem desse deus. Temos de abrir mão de nossa noção de que temos direitos, de que a vida nos deve isto ou aquilo. Por exemplo, temos de abandonar a noção de que conseguimos forçar os outros a nos amar fazendo coisas para eles. Temos de reconhecer que não temos condições de manipular a vida para nos satisfazer e que encontrar os defeitos em nós ou nos outros não é um caminho eficaz para se ajudar quem quer que seja. Aos poucos vamos abandonando nossa arrogância básica.
A verdade é que a vida dentro do casulo é frustrante e dói muito e nunca fica inteiramente para trás. Não estou dizendo que da manhã até a noite sentimos algo como "Estou envolvido pela dor". Estou dizendo que estamos sempre acordando para o que de fato nos sentimos atraídos, para aquilo que estamos fazendo com a nossa vida realmente. E o fato é que isso é doloroso. Não existe possibilidade de liberdade, porém, sem essa dor.
Ouvi há pouco tempo uma declaração de um atleta profissional: "Amor não é prazer compartilhado. E dor repartida". Eis uma boa percepção. Sem dúvida podemos gostar muito de passear com nosso marido ou namorado, por exemplo, quando saímos para jantar juntos. Não estou questionando o valor do prazer compartilhado. Mas, se queremos uma relação mais próxima e autêntica, precisamos compartilhar com nosso companheiro aquilo que mais nos assusta falar para outra pessoa. Quando fazemos isso, então o outro tem a liberdade de fazer a mesma coisa. Em vez disso, queremos ficar mantendo a nossa imagem, principalmente para alguém a quem estamos tentando impressionar.
Compartilhar nossa dor não significa ficar informando o outro de que maneira ele nos irrita. Seria uma outra maneira de lhe estar dizendo "Estou com raiva de você". Isso não nos ajuda a quebrar nosso falso ídolo, nem a nos abrir para a vida como uma borboleta. O que de fato nos abre é falar de nossas vulnerabilidades. Às vezes vemos um casal que vem fazendo esse árduo trabalho durante toda sua vida. Ao longo desse tempo, envelheceram juntos. Podemos sentir o imenso conforto, a qualidade recíproca de bem-estar entre os dois. É maravilhoso e muito raro. Sem essa qualidade de abertura e vulnerabilidade, os pares não ficam se conhecendo de verdade são uma imagem vivendo com outra imagem.
Talvez tentemos nos esquivar do casulo da dor mergulhando num estado nebuloso e mal focalizado, como um boiar levemente agradável que pode durar horas. Quando nos damos conta de que é isso que está acontecendo, qual seria uma boa pergunta para se fazer?
ALUNO: "O que estou evitando?"
ALUNO: Eu poderia perguntar: "O que estou vivenciando neste exato momento?".
JOKO: Essas são duas boas perguntas para se fazer. O curioso é que dizemos que queremos conhecer a realidade e ver a nossa vida como ela é; e, no entanto, quando começamos a praticar, ou freqüentamos os sesshin, encontramos imediatamente maneiras de evitar a realidade, refugiando-nos nesse estado nebuloso, sonhador. Essa é apenas uma outra forma de reverenciar o falso deus do conforto e do prazer.
ALUNO: Não é um certo desequilíbrio buscar o sofrimento e concentrar nele a atenção?
JOKO: Não temos que ir buscá-lo, ele já está em nossas vidas. A cada cinco minutos entramos numa espécie de dificuldade. Toda nossa "busca" é para evitá-lo. Existem incontáveis maneiras para se tentar escapar dele, ou para colocar uma concha de proteção a nossa volta. Apesar de todos os nossos esforços, essa concha se rompe. Então ficamos mais desesperados e nos esforçamos mais. Vamos trabalhar e descobrimos que o chefe teve uma noite difícil, ou que nosso filho acaba de ligar dizendo que está com problemas na escola. A concha está sendo o tempo todo invadida. Não existe maneira de nos assegurarmos de que ela permanecerá intacta. Nossas vidas se desmoronam porque não conseguimos tolerar nenhuma oposição ao modo como queremos que as coisas saiam.
A dor está constantemente em nossas vidas. Sentimos não só a nossa própria dor, mas a das pessoas ao nosso redor. Tentamos erguer um paredão mais sólido que o anterior, ou evitar as pessoas que estão sofrendo; contudo, a dor sempre está presente, seja como for.
ALUNO: Vamos supor que estou praticando e que não estou sofrendo. Na verdade, estou me sentindo muito bem. É útil lembrar
de momentos dolorosos pelos quais já se passou, ou retornar a situações que ficaram sem resolver e tentar trabalhar com essas coisas?
JOKO: Não é necessário. Se estivermos alertas para o que está se passando em nossos pensamentos e em nosso corpo neste momento, teremos mais do que o suficiente com que trabalhar.
Quando estamos plenamente despertos, neste momento, a prática também pode ser agradável. Mas não devemos ir em busca disso e tentar escapar da dor, pois assim estaríamos trazendo para a prática o falso deus e nos recusaríamos a despertar para sua verdadeira natureza.
ALUNO: Com o tempo descobri que o que começa a aparecer durante a prática não é tanto prazer ou dor, nem algo entre esses dois, mas apenas interesse. A vivência pode ser vista como uma espécie de curiosidade.
JOKO: Sim, bem lembrado.
ALUNO: Estamos falando da diferença entre o absoluto e o relativo? Podemos dizer que o absoluto é prestar atenção em tudo e que o relativo é ir apenas atrás de prazer e conforto? Relaxar no casulo da dor seria então um meio de se chegar ao absoluto?
JOKO: Eu não diria que é "um meio de chegar ao absoluto", pois sempre estamos nele. Porém, escolhemos não prestar atenção no fato de estarmos nele e deixarmos de lado parte de nossas vivências. O absoluto sempre engloba a dor e o prazer. Não há nada de errado com a dor em si: nós apenas não gostamos dela. Não existe algo chamado absoluto que seja maior do que o relativo. São os dois lados de uma mesma moeda. O mundo fenomênico das pessoas, das árvores e dos tapetes e o mundo absoluto do puro nada incognoscível, da energia, são a mesma coisa. Em vez de ir em busca de um ideal unilateral, precisamos nos curvar diante do absoluto no relativo, assim como do relativo no absoluto. Devemos honrar todas as coisas.

Comentário: A questão que se põe é esta: todos os seres querem ser cada vez mais felizes e viver cada vez mais tempo. Temos de ser realistas, e, aceitar a vida como ela é, “englobando tanto a vida como a morte, tanto o prazer como a dor, tanto o bem como o mal, sentindo conforto em ser as duas coisas...”. Mas, temos de ser também optimistas, crendo firmemente que a vida pode ser sempre melhor. Para tanto temos de unir ou separar, conforme o momento e o local, a maneira oriental e a ocidental.








O PESCOÇO


Estou a tirar a canga
Dos trabalhos bem forçados!
E a parti-la. E tanga
Ponho, a dos libertados!

Sigo, a pé, de novo.
E, que cheiro aqui! Bom!
Das flores da caixa. Movo,
Com Deus, e, tu, o bom Dom!

Mas, quase que me persegue
O mau odor, do Nazi
Que, ’inda bem, não consegue
Matar os irmãos Nasi!

Vou distender pescoço.
Com o Morte. E dormindo,
Ou quase! Pois, eu ouço
’inda p.. Que não vai indo!

Depois de aliviar
Bexiga! E, vigiando
Ficamos, no estelar
Espaço. Aí amando!

Estou embarcado. Paro
De pensar, e, trabalhar.
Distendo pescoço. Paro
Para dormir. Sem luar!

Uma mais vou escrever!
Já no comboio. E, com
Bola. Vermelha! Vou Ter
Com meu descanso. O bom!


2001-05-18

Tuesday, December 06, 2005

Monday, December 05, 2005


1. Livros, blogs, filmes, quadros, músicas, danças e bailados, etc. - Vale mais escrever\ler/ver/pintar\ouvir/dançar um bom livro, um bom blog, um bom filme, um bom quadro, uma boa dança... várias vezes, do que muitos com pouco valor. E, o que é bom para uma criança\jovem não o é para um adulto, porque o tempo, a evolução, o crescimento e o envelhecimento são uma realidade incontornável.

2. Improvisação – “Num certo sentido, toda arte ( e vida, digo eu ) é improvisação. Algumas improvisações são apresentadas no momento em que nascem, inteiras e de repente; outras são “improvisações estudadas”, revisadas e reestruturadas durante certo tempo antes que o público possa desfrutá-las. Mesmo quando escreve música o compositor está improvisando (ainda que mentalmente). Só depois ele vai refinar o produto de sua improvisação, aplicando a ele técnica e teoria... Quando chegou a Viena, Beethoven se tornou conhecido como um surpreendente improvisador ao piano, e só mais tarde como compositor ( o que quer dizer, pergunto eu, que muitas das músicas que fez não ficaram escritas? )... Mozart talvez tenha sido o maior improvisador com pena e papel... No sec. XIX, o surgimento da sala formal de concertos pôs fim à improvisação... O novo e o velho perderam contato e continuidade... Entramos num período em que os frequentadores de concertos passaram a acreditar que os bons compositores estavam mortos... A improvisação voltou à cena neste século, principalmente ma área jazzística... As artes plásticas criaram uma tradição de “automatismo”; pintores como Wssily Kandinsky... encararam suas telas sem nenhum tema preconcebido, apenas permitindo que as cores e formas fluíssem de um impulso intuitivo e espontâneo do inconsciente... Existe em todas essas formas de expressão uma unidade de experiência que é a essência do mistério criativo. O âmago da improvisação é a livre expressão da consciência quando desenha, escreve, pinta ( ou esculpe, libertando a forma que já está na forma, como dizia M. Ângelo, digo eu...) ou toca o material bruto que emerge do inconsciente. E essa liberdade acarreta certo grau de risco... Quando me perguntam como improvisar, muito pouco do que posso dizer é sobre música (o autor é músico). A verdadeira história (da improvisação, digo eu) fala da expressão espontânea, e é muito mais uma história espiritual e psicológica do que sobre a técnica de uma ou de outra forma de arte. Os detalhes de qualquer forma de arte – como tocar um violino, escrever um texto de prosa (ou poesia, digo eu), fazer um filme ou ensinar (ou fazer política, digo eu) são naturalmente específicos... Embora certos princípios se apliquem a um campo em particular, existem outros aplicáveis a todos os campos da actividade criativa. Toda a acção pode ser praticada como arte, como ofício ou como obrigação... Como é que alguém aprende a improvisar? A única resposta possível é outra pergunta: o que nos impede? A criação espontânea nasce de nosso ser mais profundo e é imaculadamente e originalmente nós. O que temos que expressar já existe em nós, é nós, de forma que trabalhar a criatividade não é uma questão de fazer surgir o material, mas de desbloquear os obstáculos que impedem seu fluxo natural. Portanto, não se pode falar do processo criativo sem mencionar aquilo que lhe cria obstáculos... esperamos que este livro possa servir como uma bomba de sucção capaz de eliminar os bloqueios à criatividade...” In: SER CRIATIVO, págs. 19, 20, 21 e 22.
3. CRIAÇÃO - “A Era Industrial trouxe consigo uma valorização excessiva da especialização e do profissionalismo em todos os campos de atividade. Os músicos, em sua grande maioria, viram-se restringidos a executar nota por nota as partituras escritas por um grupo de compositores que de alguma forma tinham acesso ao divino e misterioso processo de criação. A composição e a execução foram se separando gradualmente, em prejuízo de ambas. Formas clássicas e populares também foram se afastando cada vez mais, novamente em prejuízo de ambas. O novo e o velho perderam contato e continuidade.” In: SER CRIATIVO, de S. Nachmanovitch
Comentário: Claro que não foi a industrialização, boa em muitos aspectos, que teve culpa destas divisões, mas sim a forma e o espírito com que estas, também boas se forem bem feitas, isto é, nunca perdendo de vista a unidade, foram feitas. E, o espírito errado com que foram feitas terá sido o da pressa e do ganho fácil e injusto.
4. PREJUÍZO – Mesmo quando alguém nos prejudica, se queremos que o mal não regresse noutras formas, o melhor é mesmo não resistirmos nem cedermos. Por mais que sejamos tentados a fazê-lo. E, assim, esta atitude equilibrada livra-nos de posições erradas e prejudiciais. É que, se quem não se sente não é filho de boa gente, quem se sente demais também o não é!!
5. NOME – Por vezes parece-me que mais não somos do que o nosso nome e as letras que o constituem. Mas, o que não pode ser uma letra, e, muito mais, uma família unida ou separada de letras!!
6. ABSORÇÃO – Não convém absorver uma coisa, pessoa ou ser só por ser surpresa ou novidade. Como é óbvio, só devemos absorver e digerir o que é bom, e, na quantidade certa. Seja em que campo for!
7. INCONSCIENTE\CONSCIENTE – Só para melhor (n)os conhecermos estudamos consciente e inconsciente separadamente, se é que os estudamos assim; porque, a sua manifestação tem de ser sempre conjunta...
8. ELEITORES e ELEGÍVEIS – “ Se no Antigo Regime a capacidade eleitoral dos indivíduos era definida a partir do estatuto social, isto é, segundo critérios de sangue, o Liberalismo, que tinha como uma das suas bandeiras a igualdade dos cidadãos perante a lei, estabelecerá critérios económicos, criando assim, uma desigualdade política fundamentada na ideia de que «um certo nível de riqueza era garantia da independência de opinião dos cidadãos que, ao mesmo tempo, ficavam ligados por interesse à coisa pública», situação bem diferente daqueles que nada possuíam, «homens rudes, ignorantes, sempre sujeitos ao suborno e dispostos à desordem»51. Portanto, a independência económica andava a par da capacidade intelectual no sentido de conferir aos indivíduos o direito de participar na vida política.” In: pág. 52 de “Elites e Finanças Municipais em Montemor-o-Novo – do Antigo Regime à Regeneração (1816-1851)”, de Paulo Jorge da Silva Fernandes – Colecção Almansor, nº 2, 1999
Comentário – O poder político é muitas vezes considerado o poder por excelência. Mas, isso é discutível. Poderes como o do conhecimento, do espírito e da mente, da integridade e da justiça, do dinheiro e dos bens, das armas, das artes... São também muito fortes. Todavia, podemos talvez, para facilidade de análise, e por muito pouco tempo, dividir, como aliás se fez durante muito tempo, o poder, todos os poderes, em dois: poder temporal, ou político, e, poder espiritual, representados, respectivamente, ao nível de país, o primeiro pelo rei, presidente ou primeiro ministro, e, o segundo pelo chefe do maior movimento espiritual. Tanto a um como ao outro (podem eventualmente ser mulheres, ou dominados por mulheres), como a todos nós, aliás, compete exercer o poder com justiça, sabedoria e bom senso. Uma pessoa não pode receber seja que poder for, de Deus ou dos homens, para os usar injusta e egoisticamente. E, os tempos mais gloriosos e de maior bem estar atingem-se quando os poderes político e espiritual estão de acordo e colaboram perfeitamente um com o outro(a).

9. RIGPA - "é um estado claro e sem distrações onde nenhum apego é possível. Nesse estado, tudo que surge não é mais que uma exibição sem finalidade e se dissolve sem deixar traço, como uma vaga no oceano ou um desenho sobre a água.Comparamos tradicionalmente rigpa a um espelho. O espelho tem duas características: ele é vazio em si-mesmo, e simultaneamente ele tem potencialidade de refletir claramente todas as espécies de aparências, belas ou feias. Essas aparências, visíveis no espelho, são incapazes de o sujar, pois ele permanece vazio por essência. Estar sob a influência da mente comum e do apego, é estar fascinado pelos reflexos e se lançar em perseguição, seduzido por uns, irritado ou desgostoso com outros. Estar no estado de rigpa consiste em contemplar a exibição dos reflexos permanecendo na condição natural do espelho, sem estar distraído. Os reflexos não têm nenhum poder sobre o espelho, e este permanece imutável e sem manchas. Assim, do ponto de vista do espelho os reflexos não criam nenhum problema. Se quando vemos as projeções, esquecemos no mesmo instante a condição natural, a ilusão se instala.
Nos textos antigos do dzogchen, em particular do [semde], rigpa é também chamado [tchang tchoup sem], quer dizer bodhichitta ou "mente de iluminação". Mas esse termo tem uma significação especial no dzogchen. [tchang] significa "totalmente puro", sendo sinônimo de [kadak]. A pureza primordial de rigpa. [Tchoup] significa "realizado", "perfeito", e evocando aqui a natureza espontaneamente realizada de rigpa [lhundrup]. [Sem] é, pois aqui a natureza da mente primordialmente pura e espontaneamente presente, e não mais a mente no sentido comum.
Rigpa é nossa condição natural, nosso modo de ser último e primordial. Presente em cada um dos seres sensíveis, se bem que velado, o chamamos também tathâgatagarbha, a "essência do tathâgatha". Dum ponto de vista último, rigpa é também Samantabhadra, o Budha primordial. Enfim, enquanto presença espontânea capaz de manifestar todos os fenômenos, o chamamos "o rei que cria todas as coisas". Todos esses termos são equivalentes e tais diferenciações são usadas somente com uma finalidade descritiva.
Um último ponto importante a propósito de rigpa. Na nossa condição comum, nós não reconhecemos rigpa, e somente [sem] nos parece ser a mente. Nos textos, falamos em procurar a "natureza da mente", [semnyi]. Descobrir a natureza da mente é descobrir que [sem] não tem realidade, que ela é vazia de existência própria, que ela não tem nem origem, nem lugar, nem destino. Mas isso não é ainda rigpa. Rigpa é apresentado ao discípulo no momento preciso quando a mente comum é temporariamente dissolvida. Se o estudante reconhece no instante esta presença vazia e luminosa, sem nenhum apego nem conceito, podemos então falar do estado de rigpa.
Assim, o Ati-yoga é o veiculo de rigpa que transcende todas as análises conceituais, todas as elaborações e fabricações mentais. Enquanto tal, ele está além de todas as opiniões e da "vias" dos outros veículos, que dependem ainda da mente pensante, [sem]. [...]
O veículo do dzogchen se inicia somente com a compreensão e a experiência de rigpa, existe um modo de transmissão de poder particular no dzogchen, que visa a apresentação direta de rigpa ao discípulo. Esta transmissão, o [rigpa tsel wang] ou transmissão de poder da energia criadora de rigpa", corresponde à quarta iniciação dos tantras, a iniciação da fala.
Existem numerosas espécies em cada uma das três séries dos ensinamentos dzogchen [semde, longde, e menagde]. Esta apresentação pode ser direta de mente a mente, simbólica ou oral. Numerosos procedimentos são utilizados. Assim existem as apresentações metafóricas, as apresentações dos sentidos, e as apresentações do signo[sinal]. Enfim, existem quatro graus de elaborações para essas transmissões de poder: transmissão de poder elaborada, transmissão de poder sem elaborações, transmissão de poder completamente despida de elaborações e transmissão de poder absolutamente despida de elaborações.
Em todos os casos, o mestre, que se encontra no estado de rigpa, tenta desvelar ao discípulo o que é seu rigpa a fim de que ele tenha a experiência direta e, sobretudo a reconheça. Este reconhecimento da visão mesmo que fugaz, é indispensável ao desenvolvimento da prática, porque, sem saber do que se trata, como poderemos "desenvolver" a presença de rigpa? A prática visa, com efeito, um único objetivo, estabilizar a visão e aumentar o poder de rigpa, afim de que ele impregne progressivamente todos os nossos atos." In: SHUNIA (Internet)
Comentário: Há por vezes a ideia do excesso não só de resignação como de passividade não só nos misticismos ocidentais, como, porventura acima de tudo, nas filosofias orientais. Isto mesmo apesar de, por exemplo, a pólvora ter sido inventada na China, e, do Oriente continuar a não ser nada passivo na feitura de filhos. Também faz alguma confusão ao emotivo ocidente, a ênfase posta no oriente no controlo das paixões. Parece-me todavia realmente que sem a profunda base da paz e do auto-controle, da rigpa, portanto, não há condição para a felicidade, a alegria e o prazer tanto do mais ser como do mais fazer ( O "taj mahal" é indiano, claro…). Aliás, a rigpa será mesmo o "o rei que cria todas as coisas".




Sunday, December 04, 2005


O POETA

Age pouco o poeta:
É talvez um sonhador;
O mesmo com escritor.
Alegria é a meta!


Por várias razões certamente, entre elas a de estarem "fartos", funcionários públicos portugueses pediram ultimamente, com prejuízos financeiros, a reforma, após Governo ter aumentado tempo de serviço. E, agora o mesmo Governo já pode admitir mais de 3 mil estagiários... Sempre a mesma coisa: governar com "esperteza" para se manterem o máximo de tempo no poder, que, manifestamente, não merecem. Quando, o que devemos fazer é ajudar jovens e adultos a encontrar vocações e a vivê-las, por mais ou menos dinheiro, mais ou menos tempo! Pois, é este o caminho da felicidade!

Saturday, December 03, 2005


Prólogo: a Nova Flauta

Um deus pode fazê-lo. Mas como um homem pode penetrar as cordas da lira?

RANIER MARIA RILKE


Em sânscrito existe uma palavra, lila, que significa "jo­go", "brincadeira". Mais rica de sentidos do que as palavras corres­pondentes em nossa língua, ela significa brincadeira divina, o jogo da criação, destruição e recriação, o dobrar e desdobrar do cosmos. Lila, profunda liberdade, é ao mesmo tempo a delícia e o prazer do momento presente e a brincadeira de Deus. Significa também "amor".
Lila pode ser a coisa mais simples que existe - espontânea, infan­til, franca. Mas, à medida que crescemos e experimentamos as comple­xidades da vida, ela também pode ser a conquista mais dura e difícil, e chegar a desfrutá-la é como retomar ao nosso verdadeiro ser.
Quero começar por uma pequena história. Transcrita do folclore japonês, ela abrange toda a viagem que faremos por estas páginas. Nos dá o sabor da conquista da livre expressão, da total liberdade criativa, da qual emergem a arte e a originalidade. É a história da jornada de um jovem músico, desde o mero talento até a arte genuí­na que emerge livre e desimpedida da própria fonte da vida:

Uma nova flauta foi inventada na China. Descobrindo a sutil beleza de sua sonoridade, um professor de música japonês levou-a para o seu pais, onde dava concertos por toda parte. Uma noite, to­cou com uma comunidade de músicos e amantes da música que vi­viam numa certa cidade. No final do concerto, seu nome foi anun­ciado. Ele pegou a nova flauta e tocou uma peça. Quando terminou, fez-se silêncio na sala por um longo momento. Então, a voz do ho­mem mais velho da comunidade se fez ouvir do fundo da sala: "Co­mo um deus!"
No dia seguinte, quando o mestre se preparava para partir, os músicos o procuraram e lhe perguntaram quanto tempo um músico habilidoso levaria para aprender a tocar a nova flauta. "Anos", ele respondeu. Eles lhe perguntaram se aceitaria um aluno, e ele con­cordou. Depois que o mestre partiu, os homens se reuniram e deci­diram enviar-lhe um jovem e talentoso flautista, um rapaz sensível à beleza, dedicado e digno de confiança. Deram-lhe dinheiro para custear suas despesas e as lições de música, e o enviaram à capital, onde o mestre vivia.
O aluno chegou e foi aceito pelo professor, que lhe ensinou uma única e simples melodia. No início, recebeu uma instrução sistemáti­ca, mas logo dominava todos os problemas técnicos. Agora, chega­va para a sua aula diária, sentava-se e tocava a sua melodia - e tu­do o que o professor lhe dizia era: "Falta alguma coisa". O aluno se esforçava o mais que podia, praticava horas a fio, dia após dia, semana após semana, e tudo o que o mestre lhe dizia era: "Falta al­guma coisa". Implorava ao mestre que escolhesse outra música, mas a resposta era sempre "não". Durante meses e meses, todos os dias ele tocava e ouvia "Falta alguma coisa". A esperança de sucesso e o medo do fracasso foram se tornando cada vez maiores, e o aluno oscilava entre a agitação e o desânimo.
Finalmente, a frustração o venceu. Ele fez as malas e partiu fur­tivamente. Continuou a viver na capital por mais algum tempo, atéque seu dinheiro acabou. Passou a beber. Finalmente, empobreci­do, voltou à sua província natal. Com vergonha de mostrar-se a seus antigos colegas, foi viver numa cabana fora da cidade. Ainda man­tinha sua flauta, ainda tocava, mas já não encontrava nenhuma no­va inspiração na música. Camponeses que por ali passavam ouviam-­no tocar e enviavam-lhe seus filhos para que ele lhes desse lições de música. E assim ele viveu durante anos.
Uma manhã, bateram à sua porta. Era o mais antigo mestre da cidade, acompanhado de seu mais jovem aluno. Eles lhe contaram que naquela noite haveria um concerto e que todos haviam decidido que não tocariam sem ele. Depois de muito esforço para vencer seu medo e sua vergonha, conseguiram convencê-lo, e foi quase num tran­se que ele pegou uma flauta e os acompanhou. O concerto começou. Enquanto esperava atrás do palco, nada perturbou seu silêncio inte­rior. Finalmente, no final do concerto, seu nome foi anunciado. Ele subiu ao palco com fúria. Olhou para as mãos e percebeu que havia escolhido a nova flauta.
Agora ele sabia que não tinha nada a ganhar e nada a perder.
Sentou-se e tocou a mesma melodia que tinha tocado tantas vezes para o mestre no passado. Quando terminou, fez-se silêncio por um longo momento. Então, a voz do homem mais velho se fez ouvir, soando suavemente do fundo da sala: "Como um deus!"
Introdução

Improvisação é um mistério. Pode-se até escrever um livro sobre o assunto, mas no fim ninguém sabe o que é. Quando improviso e estou em boa forma, é como se estivesse meio dormindo. Chego até a esquecer que existem pessoas na minha frente. Grandes improvisadores são como sacerdotes; estão pensando apenas no seu deus.
STÉPHANE GRAPPELLI

Sou músico, e uma das coisas que mais amo é me apre­sentar num solo totalmente improvisado no violino ou na viola. Existe algo energizante e desafiador em estar frente a frente com a platéia e criar uma peça musical que tem ao mesmo tempo o frescor do mo­mento fugaz e - quando tudo funciona - a tensão e a simetria es­trutural de um organismo vivo. Pode ser uma experiência extraordi­nária e muitas vezes mobilizadora de comunicação direta.
Quando toco dessa maneira, sinto que não sou eu que estou to­cando; é mais como se alguém estivesse me ditando a música. Natu­ralmente, este é um sentimento que muitos compositores, poetas e outros artistas experimentam. Conta-se que um dos alunos de Bach lhe perguntou: "Professor, como é que o senhor consegue pensar em tantas melodias?". Ao que Bach lhe respondeu: "Meu garoto, minha maior dificuldade é evitar tropeçar nelas quando me levanto pela manhã" . E existe ainda a famosa teoria de Michelangelo sobre a escultura: A estátua já está contida na pedra, sempre esteve na pe­dra desde o princípio dos tempos, e o trabalho do escultor é vê-la e libertá-la, retirando cuidadosamente o excesso de material. Wil­liam Blake expressou mais ou menos a mesma idéia quando falou de "dissipar superfícies aparentes e mostrar o infinito, que está oculto".2
Este livro fala das forças interiores da criação espontânea. Fala do lugar de onde a arte vem. E digo arte no seu sentido mais amplo. Tenho visto um mecânico abrir o capô de meu carro e trabalhar com

17

a mesma sensibilidade manual e visual, a mesma destreza e pronti­dão para absorver surpresas, a mesma ligação e entrega total que ve­mos num excelente pianista, pintor ou poeta.
Este livro se destina a pessoas de qualquer ramo de atividade que queiram entrar em contato com seus poderes criativos e desen­volvê-los. Seu propósito é difundir a compreensão, a alegria, a res­ponsabilidade e a paz que nascem do uso total da imaginação huma­na.

Vamos descobrir como a música intuitiva, ou qualquer outra ins­piração, brota de dentro de nós, como ela pode estar bloqueada, des­carrilhada ou obscurecida por certos fatos inevitáveis da vida, e como ela é finalmente libertada - como nós somos finalmente libertados - para falar ou cantar, escrever ou pintar, com nossa voz autêntica. Essas questões nos conduzem diretamente a um território para onde parecem convergir muitas religiões e filosofias, assim como a genuína experiência do artista.
Qual é a Fonte em que vamos beber quando criamos? O que os antigos poetas queriam dizer quando falavam da Musa? Quem é ela? Onde nasce a imaginação? Quando os sons são realmente mú­sica? Quando linhas e cores são arte? Quando palavras são literatu­ra? Quando lições são verdadeiro ensinamento? Como manter o equi­líbrio entre estrutura e espontaneidade, disciplina e liberdade? Co­mo a paixão do artista se codifica numa obra de arte? Como nós, criadores de arte, sabemos que a visão e a paixão que nos motiva­ram estão retratadas com precisão em nossa atividade criativa? Co­mo nós, na qualidade de testemunhas do trabalho artístico, decodi­ficamos ou liberamos essa paixão no momento em que o artista já se foi e temos apenas a obra de arte diante de nós, uma obra que vai ser vista, ouvida, lembrada e aceita? Como é se apaixonar por um instrumento ou por uma arte?
Comecei a escrever este livro para explorar as dimensões interio­res da improvisação. Descobri que era fascinante que a concepção, a composição, a prática e a exibição de uma peça musical pudessem brotar num único momento e vir à tona de uma maneira inteira e satisfatória. Quando pela primeira vez me descobri improvisando, senti uma grande excitação de estar consciente de alguma coisa maior, uma espécie de comunhão espiritual que ia muito além da finalidade do fazer musical. Ao mesmo tempo, a improvisação expandia a fina­lidade e a relevância do fazer musical a ponto de desintegrar os limi­tes artificiais entre arte e vida. Descobri uma liberdade que continha em si, ao mesmo tempo, estímulo e cobrança. Observando o momento da improvisação, descobri padrões relacionados com todos os tipos de criatividade, pistas de como viver uma vida autêntica, que se cria

18


e se organiza por si mesma. Passei a ver a improvisação como a chave­mestra da criatividade.
Num certo sentido, toda arte é improvisação. Algumas impro­visações são apresentadas no momento em que nascem, inteiras e de repente; outras são "improvisações estudadas", revisadas e reestru­turadas durante certo tempo antes que o público possa desfrutá-las. Mesmo quando escreve música o compositor está improvisando (ainda que apenas mentalmente). Só depois ele vai refinar o produto de sua improvisação, aplicando a ele técnica e teoria. "Compor", escreveu Arnold Schoenberg, "é retardar a improvisação; muitas vezes não se consegue escrever numa velocidade capaz de acompanhar a cor­rente das idéias."3 Obras de arte acabadas, que admiramos e ama­mos profundamente, são, num certo sentido, vestígios de uma via­gem que começou e acabou. O que alcançamos na improvisação éa sensação da própria viagem.

A improvisação é a forma mais natural e mais difundida de fa­zer música. Até o século passado, era parte essencial da tradição mu­sical do Ocidénte. Leonardo da Vinci foi um dos pioneiros em im­provisações na viola da braccio. Com seus amigos, compôs óperas inteiras em que tanto a poesia quanto a música eram criadas na ho­ra.4 Na música barroca, a arte de tocar um instrumento a partir de um baixo cifrado (um arcabouço harmônico que o executante preen­chia de acordo com a inspiração do momento) lembra o jazz moder­no, em que os músicos criam a partir de temas ou mudanças de acor­des. Na época clássica, as cadências do violino, do piano e de outros instrumentos deviam ser improvisadas - o executante tinha a chan­ce de dar o seu toque criativo à obra. Tanto Bach quanto Mozart ficaram famosos como improvisadores livres, ágeis e imaginativos, e existem muitas histórias comoventes ou divertidas sobre suas ex­plorações nesse campo. Quando chegou a Viena, Beethoven se tor­nou conhecido como um surpreendente improvisador ao piano, e sómais tarde como compositor. Eis os relatos de dois músicos que tes­temunharam o fenômeno:

Creio que devo a essas improvisações de Beethoven minhas mais vívi­das impressões musicais. Acredito que, sem tê-lo ouvido improvisar à vontade, não se pode apreciar perfeitamente o enorme alcance de seu gênio. Sua tempestuosa inspiração fazia jorrar tão adoráveis melodias e harmonias inesperadas, porque, dominado pela emoção da música, ele não se preocupava em buscar efeitos que poderiam lhe ocorrer se estivesse com a pena na mão.5
Ele sabia causar tal impressão na platéia que as lágrimas enchiam os olhos de todos os ouvintes, e alguns soluçavam abertamente: porque havia uma certa magia em sua expressão, além da beleza e da origi­

19nalidade de suas idéias e de sua genial maneira de apresentá-las. Quando concluía uma improvisação desse tipo, ele era capaz de explodir numa gargalhada. 6
Infelizmente, não havia gravadores nessa época. Portanto, quan­
do os artistas queriam preservar sua música, tinham de demonstrar com a pena a mesma destreza que tinham no instrumento. Mozart talvez tenha sido o maior improvisador com pena e papel. Escrevia sem interrupção imaculadas partituras, inventando a música na velo­cidade que conseguia imprimir à pena, praticamente sem rasurar uma só linha. Beethoven, ao contrário, embora conhecesse intimamente os sons que queria produzir, embora os carregasse dentro da cabeça durante anos, só conseguia registrá-los no papel mediante um labo­rioso e vigoroso processo de esboço, correção, reescrita e redefini­ção. Seus cadernos eram uma enorme desordem; por meio deles épossível traçar, passo a passo, a evolução de seu pensamento musical.
No século XIX, o surgimento da sala formal de concertos pôs fim à improvisação. A Era Industrial trouxe consigo uma valorização excessiva da especialização e do profissionalismo em todos os cam­pos de atividade. Os músicos, em sua grande maioria, viram-se res­tringidos a executar nota por nota as partituras escritas por um gru­po de compositores que de alguma forma tinham acesso ao divino e misterioso processo de criação. A composição e a execução foram se separando gradualmente, em prejuízo de ambas. Formas clássi­cas e populares também foram se afastando cada vez mais, nova­mente em prejuízo de ambas. O novo e o velho perderam contato e continuidade. Entramos num período em que os freqüentadores de concertos passaram a acreditar que os bons compositores esta­vam mortos.
A improvisação voltou à cena neste século, principalmente na área jazzística. Mais tarde, a música indiana e outras tradições de improvisação devolveram ao músico o prazer da criação espontânea. Atrás dessas formas de extemporização sobre um tema ou dentro de um bloco estilístico, a livre improvisação e a invenção de novos esti­los pessoais foram surgindo isoladamente. Hoje, muitos artistas es­tão se reunindo em grupos de câmara voltados à improvisação.
Uma onda de improvisação tem surgido como modus operandi de várias outras formas de arte, principalmente do teatro e da dánça, em que a improvisação é usada não apenas como técnica capaz de produzir um novo trabalho dentro do estúdio, mas na forma de per­formances totalmente espontâneaS apresentadas ao público como obra acabada. As artes plásticas criaram uma tradição de "automatismo"; pintores como Wassily Kandinsky, Yves Tanguy, Joan Miró e Gordon Onslow Ford encararam suas telas sem nenhum tema preconcebido,

20

apenas permitindo que as cores e formas fluíssem de um impulso in­tuitivo e espontâneo do inconsciente. Nas Improvisações, séries de pinturas que constituíram a base para grande parte da arte do século XX, Kandinsky traça estados de espírito e transformações na forma como lhe ocorriam.
Existe em todas essas formas de expressão uma unidade de ex­periência que é a essência do mistério criativo. O âmago da improvi­sação é a livre expressão da consciência quando desenha, escreve, pinta ou toca o material bruto que emerge do inconsciente. E essa liberdade acarreta certo grau de risco.
Muitos músicos são extraordinariamente habilidosos na execu­ção das notas impressas numa partitura, mas não sabem como essas notas foram parar lá e se sentem inseguros de tocar sem lê-las. Nesse aspecto, a teoria musical não ajuda em nada; ela apenas ensina as regras da gramática, mas não o que dizer. Quando me perguntam como improvisar, muito pouco do que posso dizer é sobre música. A verdadeira história fala da expressão espontânea, e é muito mais uma história espiritual e psicológica do que sobre a técnica de uma ou outra forma de arte.
Os detalhes de qualquer forma de arte - como tocar um violi­no, escrever um texto de prosa, fazer um filme ou ensinar - são na­turalmente específicos; cada instrumento ou meio de expressão tem sua própria linguagem e seu próprio conteúdo. Mas existe uma espé­cie de metaconhecimento, um metafazer que ultrapassa estilos e for­mas; e é dessa essência que quero tratar nestas páginas. Embora cer­tos princípios se apliquem a um campo em particular, existem ou­tros aplicáveis a todos os campos da atividade criativa. Toda ação pode ser praticada como arte, como ofício ou como obrigação.
Como alguém aprende a improvisar? Ou como se aprende qual­quer tipo de arte? Ou qualquer coisa? É uma contradição, um para­doxo. Este é o nó elementar: chegar para alguém e dizer "Seja es­pontâneo!". Submetemo-nos a professores de música, de dança, de literatura que podem criticar ou sugerir. Mas, por trás de todas as críticas e sugestões, o que eles realmente nos pedem é que "sejamos espontâneos", "sejamos criativos". E isso, naturalmente, é mais fácil dizer do que fazer.
Como é que alguém aprende a improvisar? A única resposta possí­vel é uma outra pergunta: O que nos impede? A criação espontânea nasce de nosso ser mais profundo e é imaculadamente e originalmen­te nós. O que temos que expressar já existe em nós, é nós, de forma que trabalhar a criatividade não é uma questão de fazer surgir o materi­al, mas de desbloquear os obstáculos que impedem seu fluxo natural.


21



Portanto, não se pode falar do processo criativo sem mencio­nar aquilo que lhe cria obstáculos: todo o lodo viscoso que o blo­queia, aquela insuportável sensação de estar atolado, de não ter na­da a dizer. Esperamos que este livro possa servir como uma bomba de sucção capaz de eliminar os bloqueios à criatividade. Mas o pro­cesso de destruir bloqueios é um processo sutil. Seria ótimo se hou­vesse uma receita fácil: "Como quebrar bloqueios em sete lições". Infelizmente, não é assim que funciona o processo criativo. O único caminho para escapar à complexidade é atravessá-la. Em última ins­tância, as únicas técnicas que podem nos ajudar são aquelas que nós mesmos inventamos.
Também não se pode falar de um processo criativo, porque as personalidades são diferentes e o processo criativo de uma pessoa não é igual ao de outra. Na luta pela expressão do ser, muitos seres podem ser expressos. Cada um precisa descobrir sua própria manei­ra de penetrar e atravessar esses mistérios essenciais.
Todos temos o direito de criar, o direito à realização e à satisfa­ção pessoal. Nem todo mundo está disposto a se postar diante de uma platéia sem qualquer planejamento, esperando que a Musa se manifeste. Mas muitas pessoas se vêem numa situação semelhante. Talvez você deseje dominar um instrumento musical, expressar-se na pintura, libertar o romance que tem dentro de si. Talvez você esteja na escola, desejando convocar sua criatividade para escrever uma re­dação original. Ou deseje dar uma guinada nos negócios, descobrin­do e executando algum projeto novo e nunca visto. Você pode ser um terapeuta em busca de uma saída para tratar um paciente, ou um ativista político à procura de uma maneira mais autêntica de fa­zer com que as pessoas se liguem ao que está acontecendo ao redor delas. Como criar uma nova maneira de administrar uma cidade que cresce desordenadamente, ou uma lei que resolva alguns dos com­plicados e insolúveis problemas que afligem um Estado, uma nação ou o mundo? Como descobrir uma nova maneira de conversar com o marido, a esposa ou a amante?
A literatura sobre a criatividade está cheia de histórias sobre ex­periências de ruptura, de insight. São momentos que ocorrem quan­do nos libertamos de algum impedimento ou medo e bum! - a Mu­sa se manifesta. Alguma coisa imprevisível salta de dentro do sei" e sentimos a clareza, o poder e a liberdade. A literatura zen, na qual tenho encontrado uma profunda análise de experiências de ruptura, está repleta de relatos de kensho e sartori - momentos de ilumina­ção e de total mudança de coração. Há um momento na vida em que simplesmente chutamos uma porta aberta. Mas, em última instân­cia, não existe nenhuma ruptura; o que descobrimos no transcorrer de

22

uma vida criativa é uma série infinita de rupturas provisórias. Nessa viagem não há ponto de chegada, porque é uma jornada para den­tro da alma.
A música me ensinou a ouvir, não apenas o som, mas quem eu sou. Descobri a importância de nossas muitas tradições místicas ou esotéricas para a vida prática do fazer artístico. "Misticismo" não significa um nebuloso sistema de crenças ou fórmulas cabalísticas, mas uma experiência espiritual direta e pessoal. Nisso, difere das for­mas organizadas de religião, segundo as quais se deve acreditar em experiências de segunda mão, transcritas nos livros sagrados ou trans­mitidas pelos mestres. É o elemento místico que traz criatividade à religião. A atitude mística ou visionária expande e concretiza a arte, a ciência e a vida cotidiana. Vou acreditar no que o "Homem" me diz ou estou disposto a tentar experiências por mim mesmo e desco­brir o que é realmente verdade para mim?
Nosso tema é inerentemente um mistério. Não pode ser plena­mente expresso em palavras, porque diz respeito a profundos níveis espirituais pré-verbais. Nenhum tipo de organização linear pode fa­zer justiça a esse tema; por sua própria natureza, ele não pode ser contido absolutamente numa folha de papel. Olhar para o processo criativo é como olhar dentro de um cristal: quando fixamos os olhos Inuma face, vemos todas as outras refletidas. Neste livro, vamos olhar para um grande número de facetas, e voltar a observá-las de dife­rentes ângulos à medida que a visão for se aprofundando e se tor­nando mais complexa. Esses temas inter-refletidos, pré-requisitos da criação, são a alegria, o amor, a concentração, a prática, a técnica, o uso do poder dos limites, o uso do poder dos erros, o risco, a en­trega, a paciência, a coragem e a confiança.
A criatividade é a harmonia de tensões opostas, encapsulada na nossa idéia irrestrita de lila, ou brincadeira divina. À medida que acompanhamos o fluxo de nosso próprio processo criativo, oscila­mos entre os dois pólos. Se perdemos a alegria, nosso trabalho se torna grave e formal. Se abandonamos o sagrado, nosso trabalho perde contato com a terra em que vivemos.
O conhecimento do processo criativo não substitui a criatividade, mas pode evitar que desistamos dela quando os desafios nos parecem excessivamente intimidadores e a livre expressão parece bloqueada. Se soubermos que nossos inevitáveis contratempos e frustrações são fases do ciclo natural do processo criativo, se soubermos que nossos obstáculos podem se transformar em beleza, poderemos perseverar até a concretização de nossos desejos. Essa perseverança é muitas vezes um verdadeiro teste, mas há meios de passar por ele, há placas de sinalização. E a batalha, que é certamente para toda a vida, vale

23

a pena. É uma batalha que gera um incrível prazer e uma enorme alegria. Todas as nossas tentativas são imperfeitas, mas cada uma dessas tentativas imperfeitas traz em si a oportunidade de desfrutar um prazer que não se iguala a nada neste mundo.
O processo criativo é um caminho espiritual. E essa aventura fala de nós, de nosso ser mais profundo, do criador que existe em cada um de nós, da originalidade, que não significa o que todos nós sabemos, mas que é plena e originalmente nós.
24


Inspiração e
o Fluir do Tempo

Aquele que se prende à alegria
destrói as asas do viver;
mas aquele que beija a alegria durante o
. vôo vive um eterno amanhecer.
WILLIAM BLAKE

Quando se fala de improvisação, a tendência é pensar numa forma livre de fazer música, teatro ou dança; mas, além de suas próprias delícias, essas formas de arte são uma porta para uma experiência total na vida cotidiana. Todos nós somos improvisado­res. A forma mais comum de improvisação é a fala. Quando fala­mos e ouvimos, estamos recorrendo a um conjunto de blocos (voca­bulário) e de regras para combiná-los (gramática). E esses nos são oferecidos pela nossa cultura. Mas as frases que construímos com eles talvez nunca tenham sido ditas antes e nem venham a ser ditas depois. Toda conversa é uma forma de jazz. A atividade da criação instantânea é tão normal para nós quanto a respiração.
Não importa o que estejamos criando, seja arte ou seja um sim­ples prato culinário, improvisamos quando seguimos o fluir do tem- I
po e o desdobrar de nossa consciência, e não um roteiro predetermi­nado ou uma receita. Na criação da obra de arte, há dois momentos distintos: o momento da inspiração, em que uma intuição de beleza
ou verdade chega ao artista, e a luta, geralmente difícil, para manter a inspiração durante tempo suficiente para transportá-la para o pa­pelou a tela, para o filme ou a pedra. Um romancista pode ter um momento de insight (literalmente um flash) em que se revelam o nas­cimento, o significado e o propósito de um novo livro, mas talvez leve anos para escrevê-lo. Durante esse tempo, enquanto tem que man­tcr as idéias frescas e claras, ele precisa comer, viver, ganhar dinhei­
28

ro, sofrer, conviver com os amigos e fazer todas as coisas que um ser humano faz. Na música ou no teatro, existe ainda um terceiro momento: além do momento (ou momentos) da inspiração e do tempo necessário para a criação, existe ainda o momento da apresentação da obra ao público. Muitas vezes uma música só é executada publi­camente após a morte do compositor.
Na improvisação, há apenas um momento. A inspiração, a estru­turação técnica e a criação da música, a execução e a exibição perante uma platéia ocorrem simultaneamente, num único momento, em que se fundem memória e intenção (que significam passado e futuro) eintuição (que indica o eterno presente). O ferro está sempre em brasa.
A inspiração, vivenciada como um flash instantâneo, é uma ex­periência deliciosa e revigorante que pode se prolongar por toda a vida. A criação de um simples verso traz consigo uma incrível cor­rente de energia, coerência e clareza, exaltação e exultação. Nesse momento, a beleza é palpável, viva. O corpo se sente forte e leve. A mente parece flutuar facilmente pelo mundo. Emily Dickinson disse que o poema é exterior ao tempo. A improvisação é também chama­da de extemporização, que significa tanto "fora do tempo" quanto "proveniente do tempo".
Mas esse belo sentimento não é suficiente. Como muitas outras sensações de beleza ou de alegria, ele pode nos trair surgindo num momento e desaparecendo no momento seguinte. Para resultar nu­ma obra de arte tangível, ou numa contínua improvisação, a inspi­ração criativa precisa se sustentar no tempo. Fazer arte apenas pelo sentimento de totalidade e comunhão no momento da inspiração se­ria o mesmo que fazer amor apenas pelo momento do orgasmo.
A tarefa do improvisador é portanto esticar esses momentos, prolongá-los até que eles se misturem à atividade do dia-a-dia. En­tão começamos a vivenciar a criatividade e a improvisação como uma atividade normal em nossa vida. O ideal - do qual podemos nos aproximar, mas que nunca atingimos plenamente, porque todos nós nos sentimos bloqueados durante certos períodos - seria um fluxo ininterrupto de vivências momentâneas. É a isso que muitas tradi­ções espirituais se referem quando falam de "cortar lenha, carregar água" - trazer para as atividades rotineiras da vida diária a lumi­nosidade, a profundidade, a simplicidade contida na complexidade que vivenciamos nos momentos de inspiração. Então poderemos di­zer, como os balinenses: "Não temos arte. Tudo o que fazemos é arte". Poderemos levar uma vida ativa sem nos prendermos tanto a roteiros ou rígidas expectativas: fazer sem se preocupar com o resultado, porque o fazer é em si mesmo o resultado.Caminhar por uma cidade desconhecida seguindo a intuição émuito mais gratificante do que uma excursão planejada por lugarestestados e aprovados. Mas esse passeio é totalmente diferente de pe­

29


rambular a esmo. Mantenha os olhos e ouvidos bem abertos e deixe- se guiar por seus gostos e aversões, seus desejos e irritações conscientes ou inconscientes, seus palpites irracionais, cada vez que for preciso decidir virar à direita ou à esquerda. Você estará abrindo uma trilha só sua, que o colocará frente a frente com surpresas destina­das exclusivamente a você. Encontrará amigos, pessoas interessan­tes. Viajando dessa maneira você estará livre; não existem deveres e obrigações. A única coisa que você talvez precise planejar é o ho­rário de partida do avião. Daí para a frente, à medida que as pes­soas e os lugares foram se desdobrando à sua frente, a viagem, como uma peça musical improvisada, irá revelando sua estrutura interna e seu próprio ritmo. Cabe a você criar o cenário para encontros de­cisivos.
Existem muitas situações em que somos impropriamente solici­tados a planejar ou roteirizar o futuro. A comunicação que se estabelece no relacionamento humano, em particular, torna-se confusa e distorcida quando não vem diretamente da mente e do coração. É por isso que instintivamente sentimos a falsidade dos discursos po­líticos. Geralmente sentimos um certo mal-estar sempre que alguém I lê um discurso preparado - mesmo um bom discurso - em vez de nos falar diretamente. Se você for dar uma palestra, convém prepa- rar o que deve dizer para organizar suas idéias, mas, quando estiver diante do público, jogue fora os rascunhos e fale diretamente com as pessoas presentes.
Muitas escolas seguem um programa que estipula o que os alu­nos devem aprender, e ainda como e quando eles vão aprender. Mas numa verdadeira sala de aula, seja no jardim-de-infância, na uni­versidade ou na escola da vida, existem pessoas com necessidades par­ticulares e diferentes níveis de conhecimento. Um empurrãozinho nu­ma determinada direção pode mudar a perspectiva do aluno; depois de uma discussão, ele saberá que uma determinada leitura será con­veniente, pois lhe parecerá o passo seguinte no fluxo natural do apren­dizado. Não se pode planejar essas coisas. É preciso ensinar cada pessoa, cada classe, em cada momento: cada caso exige uma aten­ção particular. Planejar o aprendizado sem conhecer as pessoas que. irão aprender, suas potencialidades e deficiências, a maneira como elas interagem, significa impedir que as surpresas e o verdadeiro apren- '" dizado ocorram. A arte do professor é pôr em contato, no tempo real, os corpos vivos dos estudantes com o corpo vivo do conheci­mento.
Mas também existem situações em que um comportamento plancjado é apropriado. Se vou dar um concerto improvisado, posso deixar que aquilo que vou tocar e a maneira como vou tocar fluam do

meu sentimento no momento. Mas se anunciei meu concerto para as 8h30 da noite de sábado, e as pessoas planejaram suas vidas para chegar a essa hora, então, aconteça o que acontecer, vou estar lá e pronto para tocar. E se esse concerto estiver programado para uma outra cidade, a última coisa que desejaria enfrentar seria uma im­provisação nos horários das companhias aéreas.
Um amigo meu que é médico me perguntou o que um assunto tão efêmero como a criatividade espontânea tem a ver com alguém como ele, cujo trabalho é prático e científico. Eu lhe respondi com uma pergunta: "Onde está a arte na medicina?". Ele me disse que na falsa medicina o médico encara o paciente como um exemplo de um livro de casos médicos: vê o paciente como um grupo genérico de sintomas e tenta classificá-lo de acordo com o que seus professo­ res lhe ensinaram. Na verdadeira medicina, cada pessoa é única ­num certo sentido, o médico deixa de lado o conhecimento puramente técnico. Ele mergulha no caso, deixando que sua visão se forme de acordo com aquele contexto particular. É claro que ele usa aquilo que aprendeu, utiliza seus conhecimentos como referêncía, tenta compreendê-los, baseia-se neles, mas não permite que eles o ceguem­ para a pessoa de carne e osso que está à sua frente. Dessa forma, ele uItrapassa o campo da competência para entrar no campo da pre­sença. Para fazer qualquer coisa com arte é preciso adquirir técnica, mas criamos por meio de nossa técnica, e não com ela.
A fidelidade ao momento presente exige uma contínua entrega. Talvez estejamos nos entregando a algo delicioso, mas ainda assim temos de desistir de nossas expectativas e de um certo grau de con­trole sobre nossa vida. Continuamos engajados na importante ativi­dade de planejar - não para trancar o futuro num esquema rígido, mas para afinar o ser. Quando planejamos, focalizamos nossa aten­ção no campo em que estamos prestes a entrar; então nos libertamos do plano e descobrimos a realidade do fluir do tempo. Assim, pas­samos a viver em sincronicidade.
Como músico improvisador, não estou no campo da música, nem da criatividade; estou no campo da entrega. Improvisar é aceitar, a cada respiração, a transitoriedade e a eternidade. Sabemos o que po­derá acontecer no dia seguinte ou no minuto seguinte, mas não sa­bemos o que vai acontecer. Na medida em que nos sentimos seguros do que vai acontecer, trancamos as possibilidades futuras, nos isola­mos e nos defendemos contra essas surpresas essenciais. Entregar-se significa cultivar uma atitude de não saber, nutrir-se do mistério conti­do em cada momento, que é certamente surpreendente, e sempre novo.
Desde os anos 60, a questão psicológica de viver o momento pre­sente tem se tornado uma preocupação constante. Ela passou a ser vis­
30

ta como uma das chaves da realização pessoal e, sob diversas formas, tem sido o ensinamento de milhares de mestres e gurus. A popularidade dessa idéia nos re­vela que tocamos numa questão de vital importância para nossa época, e ela flo­resce em todos os campos, do amor ro­mântico à física quântica.
Uma verdade que comprovamos na prática em nossa vida é que não sabemos nem podemos saber o que vai acontecer no dia ou no minuto seguinte. O inespe­rado nos aguarda a cada esquina e a ca­da respiração. O futuro é um mistério que se renova perpetuamente. Quanto mais vivemos e conhecemos, maior é es­se mistério. Quando nos livramos das idéias preconcebidas que nos cegam, so­mos virtualmente impulsionados por ca­da circunstância a viver o momento pre­sente: o presente, o presente total, e na­da mais que o presente. É esse estado mental que a improvisação nos ensina e fortalece em nós, um estado de mente em que o aqui-e-agora não é apenas uma idéia, mas uma questão de vida ou mor­te, a partir da qual podemos aprender a confiar - a acreditar que o mundo é uma perpétua surpresa em perpétuo movimen­to. E um perpétuo convite à criação.
Qualquer bom músico de jazz pos­sui inúmeros truques de que pode se ser­vir quando se vê num beco sem saída.
Mas para improvisar você precisa aban­donar esses truques, entrar no vazio e aceitar riscos, até mesmo o de dar com a cara no chão de vez em quando. Na ver­dade, o que o público mais adora é nos ver cair. Porque então pode ver como conseguimos nos levantar e ir em frente.
A vida criativa é uma vida de riscos. Seguir o próprio curso, sem o molde es­tabelecido por pais, colegas ou institui­

31

ções, envolve um frágil equilíbrio entre tradição e liberdade pessoal, um frágil equilíbrio entre apegar-se aos próprios princípios e estar aberto à mudança. Embora, sob alguns aspectos, você esteja viven­do uma vida normal, por outro lado você é um pioneiro, aventurando-­se num território desconhecido, quebrando moldes e modelos que inibem o desejo do coração, criando vida à medida que ela se desen­rola. Ser, atuar, criar no momento presente, sem muletas ou supor­tes, sem segurança, pode proporcionar um supremo prazer, mas tam­bém pode dar medo. Dar um passo para o desconhecido pode levar à alegria, à poesia, à invenção, ao humor, a amizades para toda a vida, à realização pessoal e, ocasionalmente, a grandes insights cria­tivos. Mas também pode levar ao fracasso, ao desapontamento, à rejeição, à doença e até à morte.
No trabalho criativo, jogamos abertamente com a transitorie­dade de nossa vida, com uma certa consciência de nossa morte. Ou­çamos a música que Mozart compôs no fim da vida: nela ouviremos a leveza, a energia, a transparência e o bom humor, mas também o sussurro de fantasmas. A vida e a morte estavam muito próximas dele. Foi exatamente essa intensa comunhão com as forças primais que se fundiam nele - e a liberdade com que ele tocava com essas forças - que fez de Mozart o artista soberbo que ele foi.
Cada momento é precioso precisamente porque é efêmero e não pode ser repetido, corrigido ou capturado. Achamos que tudo o que é precioso deve ser guardado e preservado. Queremos registrar a be­leza, um desempenho inesperado. De fato, muitas grandes perfor­mances têm sido gravadas, e estamos felizes por possuí-las. Mas as melhores performances escapam à câmara, ao gravador ou à cane­ta. Acontecem no meio da noite, quando o músico toca para um amigo especial à luz da lua; acontecem no camarim, pouco antes do espetá­culo. O fato de a improvisação se desvanecer nos faz entender que cada momento da vida é único - como um beijo, um pôr-do-sol, uma dança, uma piada. Nada voltará a ocorrer exatamente da mes­ma maneira. Tudo acontece apenas uma vez na história do universo.

32





o Veículo

Existe uma vitalidade, uma força vital, uma energia, uma vivacidade que é traduzida em ação por seu intermédio, e como em todos os tempos só existiu uma pessoa como você, essa expressão é única. Se você a bloquear, ela jamais voltará a se manifestar P( por intermédio de qualquer outra pessoa,
e se perderá.
MARTHA GRAHAM

Cada música que executamos, cada dança, cada dese­nho, cada episódio de nossa vida reflete nossa mente, inteira em to­das as suas imperfeições, exatamente como é. Na improvisação, es­tamos especialmente conscientes desse reflexo: como não podemos voltar atrás, não há como cortar, emendar, fixar, retocar ou se arre­pender. Nesse aspecto, a música espontânea lembra a caligrafia orien­tal ou a pintura a nanquim. O deslizar do pincel embebido em tinta negra sobre uma fina e frágil folha de papel não permite que um único traço seja apagado ou refeito. O pintor-caligrafista lida com o espa­ço como se fosse tempo. O impulso individual que nasce do ventre e se comunica para o ombro, e daí para a mão, para o pincel e para o papel, deixa seu traço definitivo, um momento único congelado para sempre no papel. As peculiaridades e imperfeições, que estão ali para qualquer um ver, são a marca da natureza original do calí­grafo. Essa peculiaridade com que nos expressamos por meio do cor­po, da fala, da mente ou do movimento é o que chamamos estilo, o veículo pelo qual o ser se move e se manifesta.
A essência do estilo é a seguinte: existe algo em nós que pode receber várias denominações, mas que por enquanto vamos chamar de natureza original. Nascemos com uma natureza original, mas, à medida que crescemos, vamos nos adaptando aos padrões culturais e familiares, ao ambiente físico e às circunstâncias da vida diária. Aquilo que nos é ensinado se solidifica como "realidade". Nossaper­sona, a máscara que mostramos ao mundo, se cria passo a passo a par­

33
Tir de nossa experiência e de nossa educação, desde a infância até a idade adulta. Construímos o mundo por meio de atos de percep­ção, aprendizado e expectativa. E, por meio dos mesmos atos de per­cepção, aprendizado e expectativa, construímos nosso "ser". O mun­do e o ser se interligam a cada passo e a cada bloco dessa constru­
ção. Se as duas construções, a do ser e a do mundo, se realizam de.
uma forma harmónica e adaptada desde a infância até a idade adul­ta, nos tornamos "indivíduos bem-ajustados". Se elas não se har­monizam bem, podemos experimentar sentimentos de divisão inter­na, solidão ou alienação.
Se aCQntece de nos tornarmos artistas, nosso trabalho assume, em certa medida, o estilo da época: a roupagem que recebemos de nossa geração, de nosso país, de nossa língua, de nosso ambiente, das pessoas que nos influenciaram.
Mesmo quando nos tornamos adultos "bem-ajustados", tudo o que fazemos e somos - nossa letra, o timbre de nossa voz, a ma­neira como sopramos um instrumento, o modo como usamos a lin­guagem, a expressão de nosso olhar, nossas impressões digitais -, todas essas coisas são sintomas de nossa natureza original, revelam a marca de nosso estilo ou de nosso caráter mais profundo.
Muitas vezes se imagina que na improvisação se pode fazer qual­quer coisa. Mas ausência de planejamento não significa necessariamen­te que o trabalho seja feito ao acaso e arbitrariamente. A improvisação tem suas regras, mesmo que essas regras não sejam fixadas a priori. Quando somos totalmente fiéis à nossa individualidade, estamos na verdade seguindo um esquema bastante intrincado. Esse tipo de liber­dade é o oposto de "qualquer coisa". Nós nos conduzimos de acordo com regras inerentes à nossa natureza. Como seres moldados pela cul­tura, somos incapazes de produzir qualquer coisa aleatéria. Nem mes­mo um computador pode ser programado para produzir números alea­tórios; o máximo que podemos fazer é criar um padrão tão complexo que dê a ilusão de aleatoriedade. O conjunto corpo-mente possui um altíssimo grau de organização e estruturação, fruto de centenas de mi­lhões de anos de evolução. A pessoa que improvisa não opera a partir de um vácuo, mas de três bilhões de anos de evolução orgânica: tudo o que já fomos está codificado em algum lugar dentro de nós. Além dessa longa história, temos algo mais a que recorrer: o diálogo com o Ser - um diálogo que não se estabelece apenas com o passado, mas com o futuro, com o ambiente, e com o divino que existe dentro de nós. Quando fazemos música, escrevemos, falamos, desenhamos ou dan­çamos, a lógica interna, inconsciente, de nosso ser se revela e molda o material. Este rico e profundo padrão é nossa natureza original que se imprime como um selo em tudo o que somos ou fazemos.

34




Podemos perceber o caráter de uma pessoa na maneira como ela anda, dança, descansa ou escreve. Os impulsivos garranchos e rabiscos presentes nas partituras de Beethoven revelam a incontrolável rebeldia e a integridade de sua mente. A fluência e a nitidez das par­tituras de Bach revelam uma mente clara e organizada. Estilo e perso­nalidade brotam de cada traço que eles produziram. O estilo é o veí­culo de sua grande paixão, não apenas pessoal, mas transpessoal.
Observemos a força e a liberdade do traço de um contemporâ­neo de Bach, Hakuin, o grande pintor japonês e reformador do zen­budismo, e dos monges artistas de sua escola. Dentre suas obras, são particularmente conhecidos os ensos, retratos da mente e da realida­de que consistem em nada mais do que um O, um círculo impresso no papel numa só pincelada. Existe muito mais nesse simples círculo do que o olhar é capaz de registrar. O caráter desse O, as variações e inclinações da curva, seu peso e sua textura, seus meneios e imper­feições, revelam um imprimátur que nasce de um lugar muito mais profundo do que o estilo da época, muito mais profundo do que a habilidade técnica ou a personalidade superficial.
Praticamente todas as tradições espirituais estabelecem uma dis­tinção entre o ego e o Ser mais profundo e criativo: o pequeno ser em oposição ao grande Ser. O grande Ser é transpessoal, ultrapassa a individualidade, o terreno comum que todos partilhamos.
William Blake fez uma curiosa e interessante observação: "Je­sus era todo virtude, e agia por impulso, não segundo regras".7 Nor­malmente imaginamos que a virtude se origina da obediência às re­gras e não do impulso, e também que agir por impulso é loucura e
I selvageria. Mas se Jesus tivesse seguido as regras da moralidade e
1 da virtude convencionais, teria morrido velho como qualquer cida­dão leal ao Império Romano. O impulso, como a improvisação, não é "qualquer coisa", não é algo sem estrutura, mas a expressão de uma estrutura orgânica, imanente e autocriadora. Blake via em Je­sus a encarnação de Deus, um ser que agia não de acordo com as limitadas idéias alheias, mas em harmonia com o Ser maior e mais profundo, um Ser que está além da consciência e é a totalidade do universo vivo, que se expressa impulsivamente, espontaneamente, por meio dos sonhos, da arte, do mito, da espiritualidade.
Com aquele simples O, os artistas zen tinham o talento de con­centrar a totalidade do Ser nos atos mais simples. Aquele simples e espontâneo O é o veículo do self, o veículo da evolução, o veículo da paixão. É o simples e enorme sopro de Deus, sem as complica­ções do foi e do devia ser, sem perguntas e explicações. Como nosso flautista descobriu, esse imprimátur jamais pode ser obtido com es­
t tudo e repetição. Hakuin escreveu: "Quando se esquece de si mes­

36

mo, você se torna o universo". 11 Essa misteriosa entrega, a criativa surpresa que nos liberta e nos abre para o mundo, permite que algo brote espontaneamente. Se formos transparentes, se nada tivermos a esconder, o abismo entre a linguagem e o Ser desaparece. Então a Musa pode se manifestar.

37



















(de: SER CRIATIVO, de S. Nachmanovitctch- Summus Editorial)

Friday, December 02, 2005


Temos de ajudar, dando alegria e prazer, a nós incluídos, mais do que sofremos, porque senão não estamos a ser eficientes. Mas, o ideal é nunca fazermos nada que nos prejudique, mesmo que isso beneficie outros. Pois, em última análise, uma acção que prejudique o mínimo que seja, seja a quem for, nós incluídos, claro, é uma acção imperfeita. E, acções imperfeitas só ajudam a perpetuar a dor, não a acabar com ela. Mas, as acções perfeitas fazem a alegria e o prazer de todos.
A DEUS GRAÇAS
Matam em Singapura
Quem droga comercia;
Na Europa a CIA
Em aviões tortura.
Mais em Portugal chove
Ainda: a Deus graças
Até pelas desgraças;
Venham mais chuvas nove.
"Luta" por não matar,
Homem, todo o ser vivente.
Isto é comovente,
E é pacificar.
Mas quem pode matar
E mata? É só Deus,
Que dá vida com seus.
E Deus é mui amar.
E por que Deus mata?
Porque tal é levar
Só, o que vai ficar
também, se nenhum mata.

Thursday, December 01, 2005


Todos os seres vivos desejam viver, todos os seres desejam ser felizes. E, todos os seres podem ser felizes, fazendo o que precisam de fazer, com prazer e alegria. Não faz sentido algum separar o que precisamos de fazer, nomeadamente chamando-o de trabalho, seja de que tipo for, do que gostamos de fazer, a que se costuma chamar hobies ou actividades de tempos livres, pois, ambas as coisas são para nosso bem, e, existiram e existirão sempre!! E, as nossas acções devem ser tanto físicas, como mentais e espirituais.









POR QUE É QUE

Por que é que mãe grita
Com o filho, e, chora
Este? Pai onde mora?
Mãe o que é que frita?

E o bébé que chora
De noite, com a fome
Que acorda; não dorme.
É comida que demora...

Ontem foi executada mais uma pessoa nos "States". É estranho que eles ainda tenham a pena de morte, quando os "pais" já há muito a não têm. Para quem não vê nada de bom em Portugal, convém lembrar que fomos dos primeiros países a aboli-la... E, para eles, para quem mata e para quem é tentado a repô-la aqui ficam mais uma vez as palavras de Buda: "Como ousa alguém tirar a vida a outro ser vivo, não tendo a capacidade para voltar a dar-lha?"


Estive a ler a entrevista de T. Pinto ao jornal A Ponte. Falou de dois projectos para este mandato: novo edifício da Câmara (Será necessário?) e turismo em Montargil. E A. Correia, terá o projecto do novo edifício para a Junta de Freguesia de Montargil, esse sim manifestamente necessário?Estranhei que a jornalista não lhe tenha perguntado nada sobre questões que têm sido levantadas pela CDU, nomeadamente a da contribuuição autárquica da Barroqueira ser a mais baixa do Concelho.